Um trecho de um livro

– Talvez eu deva expor a coisa de outro modo- disse ele. – O que recomendo que você faça é notar que não temos nenhuma garantia de que nossas vidas continuem indefinidamente. Acabei de dizer que a mudança vem de repente e inesperadamente, bem como a morte. O que pensa que podemos fazer a respeito?
Pensei que Dom Juan estivesse fazendo uma pergunta retórica, mas ele fez um gesto com as sobrancelhas, pedindo que eu respondesse.
– Viver o mais felizes que pudermos falei.
– Certo! Mas você conhece alguém que viva feliz?

Meu primeiro impulso foi dizer que sim; achei que podia citar uma porção degente que eu conhecia como exemplos. Mas, pensando bem, eu sabia que meu esforço seria uma tentativa vã para me exonerar. Não respondi.

– Não conheço de fato.

Pois eu conheço disse Dom Juan. -Há pessoas que têm muito cuidado com a natureza de seus atos. Sua felicidade é agir com a plena consciência de que não tem tempo; portanto, seus atos têm um poder especial; têm um sentimento de…
Dom Juan parecia estar procurando os termos. Coçou as têmporas e sorriu. Então, de repente, levantou-se, como se tivesse terminado a conversa. Pedi-lhe que concluísse o que estava me dizendo. Sentou-se e franziu os lábios.
– Os atos têm poder disse ele. – Especialmente quando a pessoa que age sabe que aqueles atos são sua última batalha. Há uma estranha felicidade em se agir com o pleno conhecimento de que o que quer que se esteja fazendo pode bem ser o último ato sobre a terra. Recomendo que você reconsidere sua vida e veja seus atos sob essa luz.
Discordei dele. A felicidade, para mim, era supor que havia uma continuidade inerente em meus atos e que eu poderá continuar a fazer, à vontade, aquilo que estivesse fazendo no momento, especialmente se gostasse daquilo. Disse-lhe que meu desacordo não era banal, mas vinha da convicção de que o mundo e eu tínhamos uma continuidade determinável.
Dom Juan pareceu divertir-se com meus esforços para dar sentido às minhas palavras. Riu, sacudiu a cabeça, coçou os cabelos e por fim, quando falei de uma “continuidade determinável”, atirou o chapéu no chão, pisoteando-o. Acabei rindo da palhaçada dele.

Você não tem tempo, meu amigo falou. – É essa a desgraça dos seres

humanos. Nenhum de nós tem tempo suficiente, e sua continuidade não tem significado neste mundo assombroso e misterioso. “Sua continuidade só o torna tímido”, disse ele. “Seus atos não podem ter o discernimento, o poder, a força compulsiva que têm os atos de um homem que sabe que está travando sua última batalha na terra. Em outras palavras, sua continuidade não o torna feliz nem poderoso”.

Confessei que tinha medo de pensar que ia morrer e acusei-o de me causar muita apreensão com sua preocupação e conversas constantes sobre a morte. Mas nós todos vamos morrer disse ele. Apontou para uns morros ao longe.
-Há alguma coisa ali esperando por mim, por certo; e eu irei ter lá, também, por certo. Mas talvez você seja diferente e a morte não esteja esperando por você de todo. Ele riu diante de meu gesto de desespero. Não quero pensar nisso, Dom Juan. Por que não? Não tem significado. Se está lá for a esperando por mim, por que hei de me preocupar com isso?
Não disse que você deve preocupar-se. Então o que devo fazer? Utilizá-la. Concentre sua atenção no elo entre você e sua morte, sem remorsos, nem tristeza, nem preocupação.

Focalize sua atenção sobre o fato de que você não tem tempo e deixe que seus atos sigam de acordo. Deixe que cada um de seus atos sigam de acordo. Deixe que cada um de seus atos seja sua última batalha na terra. Só nessas condições é que tais atos terão seu devido poder. Senão eles serão, enquanto você viver, os atos de um homem tímido. E é assim tão
terrível ser um homem tímido? Não. Não é se você for imortal, mas, se você vai morrer, não há tempo para timidez, simplesmente porque esta o leva a agarrar-se a alguma coisa que só existe em sua imaginação. Acalma-o quando tudo está quieto, mas então o mundo assombroso e misterioso abre a boca para você, como abrirá para todos nós, e, nesse momento, compreenderá que seus métodos seguros não lhe deram nada disso. Ser tímido impede que examinemos e exploremos nossa situação de homens.

– Não é natural viver com a idéia constante da morte, Dom Juan.
– Nossa morte está esperando e este mesmo ato que praticamos agora pode bem ser nossa última batalha na terra replicou, numa voz solene. – Eu a chamo “batalha” porque é um conflito. A maioria das pessoas passa de um ato a outro sem qualquer conflito nem pensamento. Um caçador, ao contrário, avalia cada ato; e como tem um conhecimento íntimo de sua morte, procede sabiamente, como se cada ato fosse sua última batalha. Só um tolo deixaria de perceber a vantagem que um caçador leva sobre seus semelhantes. Um caçador dá à sua última batalha o devido respeito. É mais que natural que seu último ato na terra seja o que há de melhor nele. É agradável, assim. Amortece seu medo.

– Tem razão concordei. – Só que é difícil de aceitar.
– Você vai levar anos para convencer-se e depois levará anos para agir de
acordo. Só espero que você tenha tempo para isso.

———–

E ainda tem gente que acha que adianta alguma coisa me criticar! Ande com seu pensamento!

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